09 de julho de 2025
A aquicultura do camarão tem se expandido em regiões de baixa salinidade, como áreas desérticas e interiores. No entanto, o sucesso desses cultivos depende de um controle rigoroso dos parâmetros iônicos da água.
Entre os mais importantes está a proporção entre magnésio (Mg) e cálcio (Ca), que influencia diretamente o crescimento, a sobrevivência e a saúde imunológica dos camarões
Importância da Razão Mg/Ca
A correta proporção entre magnésio e cálcio é fundamental, especialmente em ambientes de baixa salinidade.
● Magnésio: Essencial para diversas funções biológicas nos camarões, como a osmorregulação (controle do equilíbrio hídrico e salino), ativação enzimática, e participação no processo de molting (troca da carapaça). O magnésio também atua como cofator de enzimas cruciais, como a Na+/K+-ATPase, que é fundamental para a regulação do transporte iônico nas células.
● Cálcio: O cálcio é vital para a formação da carapaça e para a função muscular, além de desempenhar um papel crítico na coagulação hemolinfática e no funcionamento neuromuscular. No entanto, seu excesso pode ser prejudicial, especialmente quando a proporção entre magnésio e cálcio é desequilibrada.
A razão ideal de Mg/Ca deve aproximar-se da encontrada na água do mar (em torno de 3:1). Quando a água usada no cultivo têm níveis elevados de cálcio e baixos de magnésio, como é comum em águas subterrâneas de baixa salinidade, isso pode levar a problemas no desenvolvimento dos camarões
Efeitos Negativos da Falta de Magnésio e Cálcio
Falta de Magnésio:
○ Desordens na Osmorregulação: O magnésio é crucial para manter o equilíbrio osmótico nas células dos camarões. A sua deficiência pode comprometer a capacidade do camarão de regular adequadamente a entrada e saída de íons, resultando em estresse fisiológico.
○ Retardo no Crescimento: Sem magnésio suficiente, os camarões apresentam crescimento lento e dificuldade em realizar a troca da carapaça (molting), impactando diretamente o rendimento do cultivo.
○ Problemas Imunológicos: O magnésio é importante para a ativação de respostas imunológicas. A deficiência pode levar à diminuição da resistência a doenças, aumentando a mortalidade.
Excesso de Cálcio:
○ Inibição da Absorção de Magnésio: Um nível elevado de cálcio inibe a absorção adequada de magnésio, exacerbando os efeitos da sua deficiência.
○ Problemas de Molting: Altas concentrações de cálcio, sem o balanço adequado de magnésio, podem resultar em molting incompleto, o que torna os camarões mais vulneráveis a infecções e parasitas.
Um novo estudo realizado por Al-Subiai et al., 2025, intitulado "Enhancing the performance of Litopenaeus vannamei nursery and grow-out by modifying Mg/Ca ratios in biofloc systems", publicado na Aquaculture Junho de 2024, investigou o impacto das razões de magnésio/cálcio (Mg/Ca) no cultivo de camarões em água subterrânea de baixa salinidade, comum em regiões desérticas como o Kuwait. A pesquisa centrou-se na melhoria do crescimento e sobrevivência dos camarões Litopenaeus vannamei, com ênfase nas fases de berçário e engorda, ajustando a proporção desses minerais essenciais.
Resultados Específicos:
● Crescimento Superior: Os camarões mantidos em tanques onde a razão Mg/Ca foi ajustada para 2.12 apresentaram um crescimento 47% superior em comparação com camarões criados em águas com proporções não ajustadas. Isso mostra como o equilíbrio entre magnésio e cálcio é crítico para otimizar o metabolismo dos camarões, especialmente em águas de baixa salinidade (Figura 1).
● Sobrevivência Aumentada: A taxa de sobrevivência dos camarões também melhorou significativamente. No ambiente ajustado, as taxas de sobrevivência chegaram a 70,8%, enquanto em águas sem ajuste da razão Mg/Ca, as taxas ficaram abaixo de 60%. A adequação da razão Mg/Ca é, portanto, essencial para reduzir a mortalidade, especialmente durante as fases críticas de crescimento.
● Fortalecimento do Sistema Imunológico: Foi observado um aumento na expressão de genes associados à imunidade, como o prophenoloxidase (proPO), e uma maior atividade da enzima antioxidante superóxido dismutase (SOD). Esses fatores sugerem que a razão Mg/Ca adequada não apenas melhora o crescimento e sobrevivência, mas também reforça a capacidade dos camarões de resistir a infecções e stresses ambientais
Relevância para o Brasil
No Brasil, um estudo complementar realizado por Moreira et al., 2020 intitulado "Ionic balance of water and physical-chemical properties of soil from marine shrimp farms in Jaguaruana, Ceará, Brazil" publicado na Revista Ciência Animal Brasileira em 2020 avaliou propriedades físico-químicas da água e solo em fazendas de camarão marinho no Ceará. Os resultados apontaram desequilíbrios iônicos similares, reforçando a necessidade de ajustes na proporção de íons como Na+/K+ e Ca2+/Mg2+ para otimizar o crescimento dos camarões.
Resultados Específicos:
● Desequilíbrio Na+/K+: A proporção entre sódio e potássio (Na+/K+) nas águas das fazendas variou de 20:1 a 50:1, muito acima do ideal para o cultivo de Litopenaeus vannamei, que deve estar em torno de 28:1. Este desequilíbrio pode limitar o crescimento dos camarões, uma vez que o potássio é um íon essencial para a função celular. Recomenda-se a adição de fertilizantes à base de potássio (KCl) para corrigir essa relação e promover um crescimento mais saudável.
● Problemas com a Proporção Ca/Mg: A relação entre cálcio e magnésio (Ca2+/Mg2+) foi inadequada em várias amostras, principalmente nas águas mesohalinas. A deficiência de magnésio em relação ao cálcio pode resultar em problemas de molting e interferir na osmorregulação. Para corrigir isso, foi sugerido o uso de calcário dolomítico, que ajudaria a aumentar os níveis de magnésio e equilibrar essa proporção, assim como elevar a dureza da água.
● Acidez no Solo e Água: O estudo revelou que tanto a água quanto o solo apresentaram um pH ácido, abaixo do ideal para o cultivo de camarões. O pH da água foi encontrado em torno de 6,8, enquanto o solo apresentou valores médios de 6,29, quando o recomendado seria uma faixa entre 7,0 a 9,0. Para corrigir esse problema, foi recomendada a calagem tanto da água quanto do solo, a fim de neutralizar a acidez e proporcionar um ambiente mais favorável ao cultivo.
Implicações para a Aquicultura
Esses resultados mostram que o monitoramento contínuo e a correção dos níveis de íons são fundamentais para a produção eficiente de camarão em regiões interiores. A falta de potássio e magnésio pode resultar em crescimento reduzido, menor taxa de sobrevivência e comprometimento do ciclo de molting (troca de carapaça). A aplicação de correções, como fertilizantes e calcário, é uma prática essencial para otimizar a qualidade da água e do solo, melhorando a produtividade e a sustentabilidade das fazendas de camarão.
Com base nos resultados de ambos os estudos, as seguintes intervenções são recomendadas para maximizar o desempenho e a sobrevivência dos camarões em águas de baixa salinidade:
1. Ajuste da Razão Mg/Ca: Modificar a razão de magnésio para cálcio nas águas de cultivo, idealmente para algo próximo de 3:1, pode melhorar significativamente o crescimento, a sobrevivência e a imunidade dos camarões.
2. Aplicação de KCl: Corrigir a deficiência de potássio é crucial em regiões onde a proporção Na+/K+ é desbalanceada, como observado no estudo do Brasil.
3. Uso de Calcário Dolomítico: Para equilibrar a relação entre cálcio e magnésio, especialmente em águas com altos níveis de cálcio, é necessário adicionar calcário dolomítico para elevar os níveis de magnésio.
4. Calagem: A correção da acidez tanto da água quanto do solo é essencial para criar um ambiente propício ao desenvolvimento dos camarões.
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