O país produziu 180 mil toneladas de camarão marinho em 2023, sendo que a maior parte dessa produção está concentrada na região Nordeste. Embora o Brasil ainda não exporte grandes volumes de camarão cultivado, o setor é essencial para as economias locais, especialmente nas áreas rurais e semiáridas. Dentro desse contexto, destacam-se iniciativas inovadoras no sertão brasileiro, onde o cultivo de camarão tem gerado novas oportunidades para pequenos agricultores.

O Início e o Desenvolvimento da Carcinicultura no Sertão de Pernambuco

Um exemplo bem-sucedido do cultivo de camarão no sertão brasileiro é o projeto inovador iniciado em Ibimirim, no semiárido pernambucano. A edição de maio/junho de 2019 da Revista Aquaculture Brasil destaca o desenvolvimento do cultivo de camarão marinho no semiárido pernambucano, em um projeto inovador voltado para agricultores familiares, escrito por Gilvan Pais de Lira Júnior Engenheiro de Pesca e Msc. em Aquicultura Instituto Agronômico de Pernambuco - IPA Extensionista Rural.

A partir de 2010, o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), em parceria com o Programa Água Doce do Ministério do Meio Ambiente, implantou um sistema produtivo integrado, utilizando a água salobra dos poços locais para dessalinização e, em seguida, empregando o efluente para o cultivo de tilápias e camarões.

Este sistema de policultivo foi um marco no semiárido. Ele permitiu o uso sustentável da água e reduziu os custos operacionais, já que os camarões se alimentavam de restos de ração e matéria orgânica presente nos tanques de tilápia. O projeto não apenas aumentou em 74% o lucro do cultivo de tilápia, mas também demonstrou que o cultivo de camarão no semiárido pode ser uma fonte de renda viável e sustentável (Figura 1).

A edição de agosto de 2024 da Revista ABCC- Asspciação Brasileiras dos Criadoes de Camarão tem como destaque “Cultivo do Camarão Marinho (Penaeus vannamei) no Mundo, no Brasil e, na Paraíba: Produção e Importação, Desafios e Oportunidades”, escrito por Itamar Rocha, Engº de Pesca, Presidente da ABCC, Diretor do DEAGRO– FIESP / Conselheiro do CONAPE/MPA, Presidente da MCR Aquacultura e André Jansen, Engº de Pesca, Presidente da ACPB.

A Paraíba, um estado com condições climáticas adversas em seu semiárido, tem sido palco de um crescimento impressionante na produção de camarão marinho. Em 2023, o estado alcançou a marca de 25 mil toneladas, tornando-se o terceiro maior produtor do Brasil, atrás apenas do Ceará e do Rio Grande do Norte. Esta produção, que movimenta cerca de R$ 500 milhões por ano, surgiu como uma alternativa viável de geração de renda no semiárido, uma região historicamente afetada pela falta de oportunidades econômicas.

O diferencial do cultivo de camarão na Paraíba está na utilização de áreas interiores, com o uso de águas de baixa salinidade provenientes de rios como Paraíba, Mamanguape e Piranhas, além de açudes e poços artesianos. Essa adaptação do camarão marinho Penaeus vannamei às condições do sertão foi essencial para o aumento da produtividade em regiões inesperadas. Isso permitiu que áreas áridas, antes impróprias para a aquicultura, fossem transformadas em polos de produção.

Desafios Enfrentados pelos Produtores no Sertão

Apesar dos resultados promissores, tanto na Paraíba quanto em Pernambuco, os produtores de camarão no sertão enfrentam uma série de desafios:

1. Falta de financiamento: Em 2023, apenas 3% das fazendas de camarão da Paraíba conseguiram acesso a financiamentos bancários, o que limita a capacidade de modernizar as operações e expandir a produção.

2. Licenciamento ambiental: Apenas 35% dos produtores na Paraíba possuem o licenciamento ambiental necessário. O processo burocrático é uma barreira significativa, especialmente para os pequenos e médios produtores, que muitas vezes não têm acesso aos recursos técnicos e financeiros necessários para cumprir as exigências legais.

3. Apoio governamental insuficiente: A ausência de políticas públicas robustas também é um obstáculo. Embora o setor de carcinicultura tenha um potencial enorme, há uma carência de apoio governamental em termos de infraestrutura e financiamento para ajudar os produtores a maximizar suas operações.

4. Dependência de intermediários: Muitos produtores de camarão, especialmente na Paraíba, vendem sua produção por meio de intermediários. Isso diminui os lucros diretos dos agricultores e dificulta o desenvolvimento de uma cadeia de valor mais eficiente e sustentável (Figura 2).

Oportunidades para o Cultivo de Camarão no Sertão

Mesmo diante desses desafios, o setor de carcinicultura no sertão brasileiro oferece oportunidades significativas:

1. Expansão da produção: A produção de camarão no interior da Paraíba e de Pernambuco vem crescendo rapidamente. Com o devido apoio financeiro e técnico, há um grande potencial para aumentar a produção, com possibilidades de exportação para o mercado internacional.

2. Mercado global em expansão: A demanda por camarão marinho cultivado continua a crescer no mercado global, especialmente em países como a China, que em 2023 se tornou o maior importador mundial. A Paraíba e Pernambuco têm a chance de aproveitar esse mercado em expansão, aumentando suas receitas.

3. Segurança jurídica: A aprovação de leis que regulam a carcinicultura, como a Lei da Carcinicultura na Paraíba, trouxe mais segurança jurídica para investidores e produtores, o que facilita o desenvolvimento do setor e atrai novos investimentos.

4. Geração de empregos e renda: A carcinicultura no semiárido já tem um impacto positivo nas economias locais. Em 2023, o setor gerou 5 mil empregos diretos na Paraíba, contribuindo para a distribuição de renda em áreas rurais e ajudando a estabilizar a economia local.

5. Sustentabilidade: O modelo de policultivo desenvolvido em Pernambuco mostrou que o uso eficiente da água salobra e a integração de diferentes sistemas de produção são soluções sustentáveis que podem ser replicadas em outras regiões do semiárido brasileiro. A utilização de recursos locais, como a água salobra, e o reaproveitamento de subprodutos tornam o cultivo de camarão uma atividade de baixo impacto ambiental.

Conclusão

A carcinicultura no sertão brasileiro, tanto na Paraíba quanto em Pernambuco, demonstra ser uma alternativa viável e promissora para gerar renda, empregos e desenvolvimento em regiões que tradicionalmente enfrentam dificuldades econômicas. Embora o setor enfrente desafios, como a falta de financiamento e apoio governamental, as oportunidades são vastas. Com políticas públicas adequadas, acesso a crédito e melhorias na infraestrutura, o sertão pode se tornar um polo importante na produção de camarão marinho, não apenas para o mercado interno, mas também para o mercado internacional.

Voltar